Altruísmo e Ganância
Maha Lilah – Denise Mascarenhas

Altruísmo. Eu estava escrevendo para o Instagram, mas seria um daqueles textos que transbordam para os comentários ou que teria que editar para caber. Por isso resolvi publicar aqui.

Primeiro dia de 2022. Não estou muito otimista, confesso. O Facebook me lembrou de uma foto na véspera de 2020 em que eu fazia uma pose de máscara às margens Lagoa Rodrigo de Freitas (RJ) com o sticker “I’m ready for 2021!”. Não estava. Ninguém estava.

Um ano depois eu não estou ready nem com este site, que ainda demanda vários ajustes. A aba Maha Lilah foi criada em Agosto de 2020, mas permanece no rascunho. Este é o primeiro texto relativo ao tema. Rufem os tambores!

Nota: o Maha Lilah é uma ferramenta de autoconhecimento baseada em um tabuleiro de 72 casas. Tradicionalmente, para navegar por ele é utilizado um dado que define quantas casas você avança. Em cada casa em que você cai, uma mensagem. Acredito que a Denise Mascarenhas tenha sido a primeira a lançar uma versão do Maha Lilah com deck. Fiz uso apenas dele para este exercício.

Sorteio duas cartas do Maha Lilah para uma mensagem de começo de ano. A primeira representa a casa em que estávamos no final de 2021. A segunda, qual casa devemos alcançar/ter como objetivo em 2022.

Saíram Lobha (4) e Paramartha (27), respectivamente. Ganância seguida de Altruísmo. É quase como transformar água em vinho. Acredito que somos todos capazes de realizar milagres, então está tudo bem.

Acho curioso, inclusive, observar as duas ilustrações. Seria a mesma mulher? As roupas são semelhantes. Na primeira, com as mãos cheias de bolsas de shopping para, na segunda, carregar uma lata de tinta em cada mão colorindo o cenário.

Lobha, a Ganância

Lobha é um dos seis inimigos (ou paixões) da mente, Arishadvarga, para os hinduístas. Também uma das três raízes da maldade, Akushalamula, para os budistas. E embora quase todo mundo traduza como “ganância” ou “cobiça”, o correto seria “desejo sensual”.

Koi Fish Spirit
The Spirit Animal Oracle

No dia em que Júpiter ingressou em Peixes, publiquei um post no Instagram a respeito do Koi Fish Spirit, uma das cartas do The Spirit Animal Oracle. Ele traz como síntese a ideia de que “há sempre o suficiente”.

Lobha aponta justo o contrário. O jogador, quando na casa 4, está constantemente insatisfeito, ainda que tenha o que precisa. Ele é da política do “nunca é o bastante”. Claramente temos um problema.

Por outro lado, pense comigo, estamos ingressando em um período extremamente favorável para trabalhar essa mudança de percepção.

De onde vem isso?

Vou levantar duas possibilidades:

A primeira, é que se você não obtém com o que verdadeiramente precisa, mesmo que em pouca quantidade, tentará preencher o seu vazio com inúmeras outras coisas que não trarão saciedade – ou essa será temporária.

Dica: descubra a real natureza do seu vazio. Do que você, de verdade, precisa? Do que você sente falta? O que acha que a vida lhe negou desde criança? A resposta nem sempre vem de imediato. Nem sempre se trata de algo óbvio. Insista na pergunta. Trabalhe isso em terapia, se necessário.

A segunda, fala de uma consciência de escassez. Você conquista algo e teme que acabe, que alguém tire de você, que a vida não reponha. Quando o Budismo trata Lobha como uma das formas do apego, é porque evita qualquer tipo de mudança. As coisas devem permanecer sempre do mesmo jeito – ainda que não seja de um jeito bom porque eu imagino que tenho controle.

É importante pensar em Lobha como desejo sensual porque não se trata de ter dinheiro, por exemplo, mas o que o dinheiro proporciona para satisfazer os meus sentidos. Podemos ser igualmente gananciosos em nossas relações através da necessidade de perpetuar prazeres ou a sensação de estabilidade.

Dica: desenvolva a consciência da abundância e a confiança que a vida sempre nos supre se nos colocamos verdadeiramente receptivos a ela. Também ter em mente que tudo o que existe é impermanente: nasce, desenvolve, amadurece, definha e morre. Não tem como escapar disso. Não aceitar é sofrer. O desejo de controle é um equívoco, uma ilusão.

2021 como um ano agravado por Lobha

Não é nem um pouco difícil contextualizar Lobha no ano que acabou. Obviamente não tem como falar 2020 e 2021 ignorando a pandemia e as questões políticas do Brasil e do mundo.

Lobh - O Jogo da Vida
Maha Lilah – Nickson Gabriel

Se trazemos o assunto para o âmbito individual, talvez algumas pessoas se recusem ou tenham dificuldade em identificar a sua própria ganância/cobiça/avareza, afinal, este é um dos Sete Pecados Capitais. Pecador é sempre o outro, certo?

Mas eu, por exemplo, tenho atendido muitas pessoas assim nos últimos tempos. Gente que tem medo de sair de um emprego que não faz mais sentido, que faz adoecer, mas paga as contas.

Também quem vive um relacionamento que não vem funcionando há bastante tempo, mas, por um lado, é conveniente por conta do aspecto financeiro e, por outro, pelo receio de ficar só.

“Eu não quero viver com incerteza!”. “Eu não quero diminuir o meu padrão de vida!” – mesmo quando diminuir não representa, de fato, uma ameaça ao bem-estar. Ouço muito esses argumentos e suas variações.

Somos gananciosos até mesmo quando solteiros, seja quando procuramos o maior número de experiências possíveis ou quando queremos alguém “que seja para sempre”. Há também os indecisos dos aplicativos de relacionamento porque “vai que aparece uma opção melhor?’.

Não afaste de si essa possibilidade apenas porque a sua visão de Ganância é superficial – você não está sozinhe. Toda compulsão pode ser vista como fruto da Ganância, por exemplo, seja de bens, de alimentos, de afeto, de sexo… A boa e velha tentativa de preencher o vazio. Reflita sobre isso.

Paramartha, a Visão Suprema que nos leva ao Altruísmo

A segunda carta, Paramartha, traz um bônus. O Maha Lilah tem casas que nos fazem recuar para a primeira linha e outras que nos impulsionam para linhas superiores.

Veja bem, Altruísmo é a última casa da terceira linha e, ao cair nela, o jogador se desloca para o centro da quinta linha, casa 41, Jana-Loka, associada à Vishuda, o Chakra Laríngeo. Não vou explorar essa parte para não perder o foco. Chega na 27 que a experiência da 41 estará garantida.

Paramartha se refere à compreensão da realidade última. A consciência genuína de que não existe, por exemplo, um “eu” e um “outro” – tema bem pertinente ao Manipura, que passa pelas relações de poder.

Altruísmo Manipura Chakra
Manipura Chakra Yantra – Harish Johari

Harish Johari entende Paramartha como abrir mão de si mesmo em nome de algo elevado, daí a tradução como “Serviço Abnegado”.

Gosto quando Beto Mancini coloca que “caridade é dar o que sobra, altruísmo é dividir uma única fatia de pão”. Da maneira como eu vejo, isso não é, necessariamente, generosidade ou sacrifício, mas a certeza de que a fonte de toda a vida é inesgotável e está sempre disponível para nutir as nossas necessidades.

A dupla Lobha e Paramartha me chamou a atenção justamente porque a Generosidade é a virtude que serve como antídoto para o pecado da Avareza.

Om Shanti, em Maha Lila – O Jogo Oráculo, substitui Altruísmo por “Servir” e afirma que o jogador age sem buscar recompensas. Ele simplesmente age de acordo com o que cada momento pede, o que está além da percepção de perdas e ganhos.

Essa frase, por sinal, fez com que eu percebesse Paramartha com outros olhos.

Primeira chave da ascensão: não creia em perda ou ganho

Lembrei aqui do livro da Leslie Temple-Thurston, Retornando à unidade: As sete chaves da ascensão, que eu gosto muito. Ela descreve sete pontos (chaves) localizados entre os chakras principais.

Perdas e Ganhos
Chakras – Freepik

Cada uma dessas chaves tem um tema. Quando deficiente, o fluxo entre os chakras fica obstruído. A primeira chave fica entre o Vishuda (Laríngeo) e o Ajna (Frontal).

Quando o ego sente que sofreu uma perda, os corpos mental, emocional e físico se contraem e perdem a sua luz. Eles se tornam desprovidos de energia vital. Essa perda de força vital nos traz medos profundamente assentados no ego, que o fazem reagir com certos comportamentos, tais como a necessidade de se defender de mais perdas – Retornando à unidade: As sete chaves da ascensão.

Não limite o seu entendimento de perda a algo tangível que é tirado de você ou a uma derrota para alguém, para citar dois exemplos simples. Todo tipo de desaprovação, rejeição, traição, ressentimento e falta de confiança em si entram em uma longa lista de variantes. Daí a nossa busca por aprovação, reconhecimento, posses, sucesso etc. como os ganhos que irão zerar ou gerar lucro em um balancete moral ilusório.

Não creia em perda ou ganho pode ser tema para muitos textos e trabalhos terapêuticos. Aqui eu deixo uma provocação inicial. Sugiro seriamente o livro. Eu mesmo vou reler esse capítulo. Não prometo, mas de repente trago outros textos.

Que tal colocar Paramartha como meta para 2022? O que você pode fazer a respeito? Cada passo conta. Reproduzindo uma fala da Mafalda que apareceu por aqui, “Não é 2022 que tem que ser diferente; é você”.

Possam todos se beneficiar!