Marcheshvan, o mês do Dilúvio
Marcheshvan, o mês do Dilúvio

Estou escrevendo este artigo em 2021. O segundo mês do calendário judaico, Marcheshvan, começou no dia 7 de outubro. A relação com o calendário gregoriano varia de ano a ano, caso você esteja lendo em algum outro momento.

Dependendo da fonte, encontraremos Mar Cheshvan ou apenas Cheshvan. Existe uma longa discussão sobre a forma correta e o entendimento que a separação é um equívoco, embora seja amplamente aceita.

Pode acrescentar a essa lista, Chodesh Bul, o “Mês do Dilúvio” (mabul). De fato, o dilúvio bíblico começou no dia 17 de Marcheshvan de 1536 e terminou no dia 27 do ano seguinte.

Mabul, o Dilúvio

“E disse Deus a Noach: ‘O fim de toda criatura veio perante mim, porque se encheu a terra de violência por causa deles e eis que os farei perecer juntamente com a terra'” (Bereshit/Gênesis 6:13).

Algumas correntes afirmam que o Dilúvio não foi um castigo de D’us, mas uma consequência natural (e inevitável) do transbordamento da energia de corrupção presente na terra. É dito que a base do trono do Eterno é formada por várias letras Caf – inicial de kise (כִּסֵּא), que é “trono” em hebraico. Tudo que geramos energeticamente (pensamentos, palavras e ações) chega ao Trono de Glória e retorna ao Mundo Físico.

Depois de tanto tempo vivendo em iniquidade a balança da humanidade não tinha mais como ser reajustada. O que equilibra a balança? O amor, por muito tempo, inexistente. O homem foi responsável pela sua própria aniquilação.

Leve em conta que Noach levou 120 anos para construir a arca. Durante toda a sua trabalhosa montagem, as pessoas perguntavam o motivo de se erguer uma embarcação gigantesca em terra firme. O homem justo, único em sua geração, retransmitia as palavras de D’us e elas riam. Se tivessem mudado o comportamento a partir do seu aviso, talvez tivessem evitado a catástrofe.

Depois de um mês intenso de atividades/conexões em Tishrei, Marcheshvan, um mês sem festividades, serve de lembrete para o fato que o status recém-conquistado não é permanente. Orai e vigiai sempre, até por conta dos atributos de Akrav que veremos adiante.

Nun, a letra regente de Marcheshvan

Oráculo Otiot - Letra Nun
Letra Nun

Nun é iniciam de nofelim, os “vacilantes”, e de nefilim, que além de “caídos”, é a designação de uma classe de seres descritos como “gigantes” na Torá. Esse entendimento é bem controverso. Falam dos filhos de anjos caídos com mulheres humanas. Lutero defendia que o termo se referia a povo de grande estatura (não necessariamente gigantes) de comportamento tirânico.

Seja como for, vamos considerar a queda espiritual. Alguém que se deixa seduzir pela má inclinação e acaba por se corromper.

No entanto, Nun é considerada como sendo a letra de Mashiach (“Messias”). que irá erguer o Terceiro Grande Templo no mês de Marcheshvan.

E pesar do Mashiach ser normalmente apresentado como uma pessoa (e serão dados vários exemplos usando Nun com este objetivo), o termo se refere, de verdade, a um estado de consciência elevado correlato à neshamá, o aspecto mais elevado da alma.

Nun, deste modo, traz consigo a experiência do mais abismal e do mais celestial em cada ser humano. Gosto de pensar que Nun pode representar o confronto com os nossos próprios demônios, onde a crise promove a transformação da consciência.

Akrav, o signo de Escorpião

Nun é regente do signo de Escorpião – Akrav, em hebraico. Em árabe, akrab significa “guerra” ou “conflito”. Mas também está associado à akev (“calcanhar”), lembrando aqui a promessa de que a serpente morderia o calcanhar do homem (Bereshit/Gênesis 3:15), pegando de surpresa.

O escorpião e a serpente são duas criaturas do deserto que podem surgir de onde menos se espera. De modo geral, é dito que a serpente tem o sangue quente e, o escorpião, o sangue frio. O que é “quente” e o que é “frio”?

Akrav, o escorpião
A constelação de Escorpião

Alguns dirão que a serpente é astuta, age com a mente, seduziu Chavá (Eva) com argumentos. O escorpião, por outro lado, age por instinto. Alguns devem conhecer a fábula do escorpião que pica o cisne que dava carona em suas costas para atravessar o rio. Ele argumentou que não poderia ir contra a sua natureza e a consequência disso é que morrem os dois.

Por “quente” e “frio” também podemos entender como o tempo de reação das coisas. O quente “explode” enquanto o “frio” guarda. Não é à toda que se fala do espírito vingativo do signo de Escorpião que sabe esperar o momento certo de dar o troco. O escorpiano esconde o que sente, finge indiferença.

Quando trazemos essas ideias à Nun e ao mês de Marcheshvan, devemos prestar mais atenção em nossos escorpiões, especialmente na forma de mágoas e ressentimentos. Águas que são represadas até que chega um momento em que transbordam sem controle.

Dalet, a letra regente de Ma’adim (Marte)

Oráculo Otiot - Letra Dalet
Letra Dalet

Com Dalet e Nun, escrevemos tanto dan (‘juiz”) quanto din (“julgamento”). De fato, é preciso tomar cuidado com a nossa energia de julgamento. O julgamento é um atributo de Gevurá que é equilibrado por Chesed. Lembrando o episódio bíblico, o mundo foi destruído pela falta de amor.

Ma’adim significa “ficar vermelho” e, de novo, estamos falando da presença de Gevurá. A quinta sefirá está ligada ao rigor, mas não se esqueça que também fala do desejo de receber.

Dalet é a letra do “homem pobre” (dal). Em alguns aspectos vamos abordar a esterilidade e a falta de recursos, mas o homem pobre também é aquele que reconhece o que lhe falta, logo, Ma’adim é a parte de Dalet toma uma atitude para obter o que precisa.

Em um aspecto negativo, pode nos colocar no lugar dos nefilim que tomavam as coisas à força, mas, proativo, não fica estacionado esperando que as coisas aconteçam.

É interessante observar que, no mês seguinte, Kislev, temos Samech, que é a dupla de Nun, e Gimel, que faz par com Dalet. Gimel, de fato, é o homem rico que vai em direção ao homem pobre, mas se esse pobre não estica a mão, o rico não irá empurrar a comida goela abaixo.

Trabalho de casa

O mês de Marcheshvan pede, basicamente, um cuidado com relação aos instintos. Instinto é uma palavra que dá margem para várias discussões, mas não farei grandes elaborações. De maneira crua, o dicionário define como:

instinto
substantivo masculino
1. impulso interior que faz um animal executar inconscientemente atos adequados às necessidades de sobrevivência própria, da sua espécie ou da sua prole. “i. reprodutor”
2. impulso natural, independente da razão, que faz o indivíduo agir com uma finalidade específica. “i. materno”

Quando falamos das gerações pré-diluvianas, descrevemos uma humanidade distanciada de sua natureza espiritual. “Noach foi um homem justo (tzadik), perfeito nas suas gerações; com Deus andou Noach” (Bereshit/Gênesis 6:9).

Um tzadik é “aquele cujo mérito supera sua iniquidade”. Sua vida é como a de qualquer outro, com alegrias e tristeza, mas “por andar com D’us” (por ter consciência de sua natureza divina), não se deixa dominar pelo yetzer hará, a “má inclinação”.

Para dar um exemplo extremado, o desejo por sexo é um instinto primário. Os estudos da Torá revelam que, nos tempos de Noé, o homem mais forte subjugava os mais fracos (homens e mulheres) para saciar a sua vontade. O estupro era algo muito comum. Eu quero, eu tenho.

Sabemos que não é assim que funciona e muitos têm aversão por esse tipo de comportamento. No entanto, somos condescendentes com faltas menores e depois justificamos que agimos sem pensar.

De novo pensando nas atividades/conexões de Tishrei, estamos mais preparados para olhar para essas questões. Gosto muito da abordagem budista a respeito de Moralidade, que não tem a ver com o que é certo ou errado, mas com o compromisso de abster-se de fazer o mal, cultivar o bem e contribuir com o coletivo.

Possam todos se beneficiar!