Maquete da Antiga Jerusalém – foto de Dennis Jarvis

Em 2021, o mês de Tevet começou na noite do dia 4 de dezembro, junto com o acendimento da sétima vela de Chanucá.

O fato dos dois últimos dias de Chanucá entrarem no mês de Tevet, de certa forma, atenua o peso desse período. Além do início do Inverno no hemisfério norte (noites mais longas), o dia 10 é marcado por um dos quatro jejuns do calendário judaico.

No ano de 3336 (425 AEC – Antes da Era Comum), no dia 10 de Tevet o exército de Nevuchadnetsar (Nabucodonosor) iniciou o cerco de Yerushalayim (Jerusalém). Em 17 de Tamuz de 3338 a cidade foi invadida e, em 9 de Av do mesmo ano, o Primeiro Grande Templo caiu.

Tevet, Tamuz e Av são considerados três meses de contração da Luz por conta dos fatos que envolvem a queda do Primeiro e do Segundo Templo (também no mês de Av, em 3829).

O cerco de Jerusalém

Além da Torá, temos Nevi’im e Ketuvim como livros sagrados da tradição judaica.

Nevi’im é o Livro dos “Profetas” e, Ketuvim, “Escritos” – onde vamos encontrar Tehilim (“Salmos”), por exemplo. Dentre os profetas, interessa aqui citar Yechezkel (Ezequiel).

Ezequiel
A visão de Ezequiel, por Julius Schnorr von Carolsfeld

Yechezkel teve a visão da Merkabá (“Carruagem” de D’us) e a experiência desencadeou uma série de avisos proféticos a respeito da queda do Primeiro Templo. Em Yechezkel 24:2 está escrito que Samach melech Bavel al Yerushalayim (“o rei da Babilônia sitiou Jerusalém”).

Como vimos no mês anterior, samach é uma palavra correlata à Samech e indica fortalecimento, elevação (de quem caiu) ou apoio. De modo geral, Samech se traduz como uma ajuda, mas aqui, está como “sitiar”. D’us não atuou de forma favorável aos judeus.

Outros reis tentaram fazer o mesmo no passado e foram vencidos. Por que Nabucodonosor não teve o mesmo fim? Em resumo, os historiadores dizem que os judeus, naquela ocasião, “não estavam alinhados com os ensinamentos da Torá”.

Isso não significa que eles foram punidos por D’us. No passado, como hoje, a espiritualidade nos ensina que as escolhas que fazemos diariamente definem a “força de nossas muralhas”.

Lembrando que a Torá é um livro de códigos, quero colocar isso de outra forma, de modo a não ficar restrito a religiosos dessa tradição.

A saúde mental no mês de Tevet

Eu nem gosto de separar corpo, mente, emoção e espírito. Todos esses aspectos funcionam de forma integrada e a visão do todo é algo muito importante quando se fala da letra Ayin, por exemplo. Separo aqui com finalidade didática e destaco a saúde mental porque talvez seja a que se coloque mais evidente.

Saúde Mental em Tevet
Saúde mental – ilustração by Freepik

Para além dos dogmas e práticas, as religiões estão pautadas em princípios/condutas espirituais. Não quero escrever sobre o que é “certo” ou “errado”, mas sobre o que nos “eleva”/”expande” ou nos “enfraquece”/”contrai”.

A palavra hebraica mitzvot é traduzida como “mandamentos” quando, de verdade, significa “conexões”. A Torá descreve 613 mitzvot. 365 delas são de atitudes que nos “afastam de D’us”, enquanto 248 nos “aproximam Dele”.

No Instagram, eu esbarrei com um reels da SueideKintê, ligada ao Candomblé. Nele, Sueide afirma que ” o maior ebó (“oferenda”) é de comportamento. Ser de orixá envolve você se comprometer de encontrar uma maior consciência de si no mundoe segue falando sobre a superação medo – clique no link e assista.

Vagner Ìgbínlàfàn, também no Instagram, trouxe algo na mesma linha: “às vezes (arrisco dizer que quase sempre), o ebó que é necessário para criar aproximação com orixá é mudança de atitude, e também que “é a gente que afasta orixá quando não escolhemos, resistimos ou simplesmente não optamos por não melhorar o orí”.

Orí é “cabeça” em iorubá. Não apenas a cabeça física, mas a mente (que podemos relacionar a diferentes capacidades cognitivas) e a conexão com os Planos Superiores.

As duas referências apareceram aqui (de fato, o Vagner me levou à Sueide) e eu não ignoro as sincronicidades. Ainda que o meu conhecimento das religiões afro seja superficial, o que eles disseram faz muito sentido para mim e pode ser adaptado a qualquer tradição.

Quando chega o Inverno

Vale lembra que Tevet é o primeiro dos três meses de Inverno (Choref). Se as estações do ano não apresentam diferenças radicais aqui nos trópicos, em Jerusalém faz muito frio. As temperaturas variam entre 10°C e 12°C, incluindo neve em algumas ocasiões. O Sol, geralmente, se põe no meio da tarde.

Para além dos dados climáticos, precisamos considerar que é muito comum, nessa época, a chamada “Depressão de Inverno”. Eu mesmo tenho clientes e amigos na Europa que são seriamente afetados no seu humor com os dias curtos e frios.

O Inverno também nos serve, muitas vezes, como metáfora para períodos difíceis e de escassez. Bate uma sensação de desamparo e, algumas vezes, questionamento da fé.

O Cerco de Jerusalém é um dado histórico, mas também uma condição pela qual todos passamos de oposição na vida, quando algo, aparentemente externo, tenta restringir o fluxo da abundância. Usamos, no dia a dia, expressões como “estar cercado”, “não ter saída” ou “se sentir encurralado”.

Espiritualidade, para mim, não é acender vela. Acender vela faz parte. Mas o exercício da espiritualidade envolve a qualidade das relações: relação consigo mesmo, com as pessoas, com a natureza, com o Divino.

Quando não cuidamos da nossa espiritualidade, corremos o risco de ficar vulneráveis ao ataque do inimigo. A saúde mental fica abalada. E “quando a cabeça é fraca, o corpo padece”, dizem os mais velhos.

Reinterpretando livremente, digo que, das 613 mitzvot, em 365 atitudes você se perde/desconecta de si mesmo(a). Nas outras 248, mantém a sua saúde/integridade e fortalece as suas defesas, lembrando sempre que “o inimigo” não está fora, mas dentro de cada um.

Tevet, o mês de Gedi, a cabra montanhesa

A constelação do Capricórnio é, por muitos, associado à Amalteia, a cabra mítica que amamentou Zeus enquanto ele permanecia escondido de Cronos na ilha de Creta. Outra lenda conta que Pã, para fugir de Tifão, mergulhou em um rio e mudou de forma, assumindo um ser com a metade traseira de um peixe e, a dianteira, de um bode.

Letra Ayin em Tevet
Oráculo Otiot

Obviamente a tradição judaica não compartilha desses fundamentos mitológicos. O signo de Gedi é representado pela cabra montanhesa, que passa a maior parte de suas vidas em lugares íngremes, alto de árvores e penhascos.

A busca por lugares altos, por sinal, empresta atributos ao signo regido pela letra Ayin na busca de uma visão privilegiada – marcando aqui outro texto em que falei dela.

Ayin significa “olho’ e vai falar da nossa visão. Tanto a visão mecânica e objetiva das coisas (“o céu é azul”) quando a visão pessoal e subjetiva – crenças e valores.

Quanto mais “dura” a visão, maior o julgamento, mais fragmentada a realidade. Por isso Ayin também significa “fonte” e nos fala da consciência de que tudo o que existe partiu do mesmo lugar.

Achei ótimo trazer duas referências afros a um texto judaico porque a mensagem se sobrepõe ao mensageiro. O valor numérico 70 se refere a todas as nações da Terra naquela época. Ayin é a multiplicidade presente na Unidade.

Ayin e a necessidade de limpar o olhar

É uma prática diária do judeu é “limpar seus olhos” com as franjas do talit. A pouca luminosidade do Inverno, inclusive, pode alterar a nossa visão. É importante, em muitas situações, questionar tanto o que não se vê (por restrição) quanto o que se nega a ver (resistência).

O Desesperado em Tevet
Os Quarenta Servidores

Ayin pode ser um convite, inclusive, para novos olhares. Dentro das práticas de Design Thinking, por exemplo, é comum ter uma equipe multidisciplinar. Quando o grupo se debruça sobre o mesmo problema, a solução para uma questão de engenharia pode vir de um oceanógrafo.

Tem uma carta do oráculo dos Quarenta Servidores que eu gosto de mencionar com uma possibilidade que não faz parte do Grimório. O Desesperado olha sempre para baixo. É uma imagem de desolação, de alguém que sente contraído.

Algumas pessoas chegam assim numa consulta e eu digo que elas precisam levantar a cabeça para eleva o seu campo de visão. De um ponto mais alto (olha a cabra montanhesa!) é possível identificar coisas que não enxergamos de cabeça baixa.

Estar sitiado no Inverno pesa e retesa. Você não sabe quanto tempo vai demorar, se os recursos serão suficientes. Existe a guerra psicológica. O inimigo faz barulho, ameaça, não te deixa dormir. É a “noite escura da alma”. Muito provavelmente, no atual nível de consciência não se veja uma saída mesmo.

Mas, de novo, se você trabalha a espiritualidade e o autoconhecimento, a luz se faz presente. Clareza e lucidez são palavras correlatas à luz. E não apenas a luz física, mas a Luz espiritual igualmente.

Acrescento que olhar apenas apenas para os próprios interesses ou para o prazer imediato, também faz com que uma pessoa perca a visão do todo e não perceba para onde as suas escolhas a levam. O cerco aperta.

Beit: a longa marcha de Saturno começa em Tevet

Beit é a letra da Criação. A Torá começa com Bereshit (“No princípio”). Tudo, na ótica judaica, começa com Beit (2). Alef (1) se refere ao que pode vir a ser.

Dalet/Ma’adim (Marte), Gimel/Tsedek (Júpiter) e Beit/Shabatai (Saturno) são corregentes de dois meses cada. Mas Shabatai, em especial, pega dois meses seguidos, Tevet e Shevat.

Letra Beit, presente em Tevet e Shevat
Otiot Oráculo

O que vale em um mês serve para o outro? Sim, mas eu seleciono diferentes atributos observando a natureza de cada lunação.

Beit é a palavra hebraica para “casa”. Casa é o lugar que nos dá abrigo, fala da nossa identidade (a família) e estabelece um contorno. A igreja, por exemplo, é a “Casa de D’us”. O corpo é conhecido como a “morada da alma”.

Como prefixo, indica o movimento para dentro daquilo que a precede. Para além do contexto gramatical, podemos interpretar Beit como introspecção – um movimento para dentro de si mesmo.

Alguns destacam a sua abertura para o Norte, “de onde vem o mal”. Na Árvore da Vida, o Norte é a direção de Gevurá.

Mantemos o Norte de nossas casas protegido se agimos com integridade, se estamos sempre vigilantes com relação ao yetser hará (“má inclinação”).

A importância de tomar refúgio

“Tomar refúgio” é uma expressão muito comum no Budismo. E ainda que um budista tome refúgio no Buda, Dharma e Sangha, gosto de ampliar essa nomenclatura para todo caminho espiritual.

A casa e o templo são lugares de refúgio – estou trazendo Beit para esse lugar do abrigo. Mas alguns fazem do trabalho um lugar de refúgio. Também as drogas, o sexo etc.

No dicionário, o refúgio é tanto o lugar para onde se foge para escapar de um perigo quanto aquilo que serve de amparo ou proteção. Obviamente, nem sempre estamos fugindo de um perigo. Há quem fuja dos problemas, das responsabilidades, da vida e até de si mesmo. Por isso colocar trabalho, drogas e sexo como exemplos.

Mas para quem pensa em Buda, Dharma e Sangha como um clube do qual se faz parte, ter um nome budista dado na tomada de refúgio não te dá muitas garantias garantias. Tomar refúgio é abraçar uma nova forma de ver e de atuar no mundo. Não é diferente do “fazer ebó“, como vimos anteriormente.

O yetser hará estará sempre presente. O Inverno é sazonal. Em que você toma refúgio? Como esse refúgio te protege? Essa é uma grande questão em Tevet.

Possam todos se beneficiar!