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O que é tesão para você?

Por muito tempo os dicionários definiram tesão como palavra vulgar, ligada estritamente ao desejo sexual de uma pessoa por outra.

Como outras expressões ligadas ao sexo, traz características essencialmente masculinas, como se não fosse possível (ou não interessasse) que mulheres tivessem direito ao protagonismo da narrativa.

Tesão vem de “teso”, algo esticado, rígido, firme, inflexível e inquebrantável – uma referência direta ao pênis ereto.

O tesão de Roberto Freire

O psiquiatra Roberto Freire foi o criador da Somaterapia e autor do livro “Sem Tesão não Há Solução” (1987). Talvez tenha sido o principal responsável por tirar o tesão da marginalidade e das confissões sussurradas entre amantes.

Foi a partir das discussões sobre a importância do tesão que ele passou a ser socialmente aceito. Hoje faz parte de argumentos de vendas, mensagens de autoajuda, conselhos de coaches (bate na madeira!), diálogos de novelas e pautas jornalísticas.

Para Roberto, tesão é a paixão por algo que desperta prazer, beleza e alegria. E acrescentava: “é o que te dá brilho, criatividade e motivação de vida. O que te aproxima dos outros e faz com que você se volte para as causas que favoreçam o coletivo”.

Na reta final do Curso de Introdução à Somaterapia, a conversa girava em torno do tema tesão. Estava um baralho de Tarot na mesa e resolvi tirar uma carta pensando em qual arcano poderia traduzir tesão naquele momento.

Saiu o 3 de Ouros e o que rola na sequência não é uma definição de que o 3 de Ouros é uma carta de tesão, mas um exercício de livre associação como já fiz em outras ocasiões. Talvez fosse mais fácil com uma carta de Paus porque o tesão conversa bem com o Fogo, mas veio uma carta da Terra. O que podemos extrair disso?

O 3 de Ouros do Golden Art Noveau com o curso rolando ao fundo

O tesão na arte

Estava com o Golden Art Noveau Tarot, baseado no Waite-Smith, na mesa. Ele traz a imagem de um artífice realizando o seu trabalho sob o olhar e duas outras pessoas. Toda arte nasce do tesão. Ninguém cria algo verdadeiramente tesudo se o faz de forma protocolar, mecânica ou em série. A rotina, como se sabe, diminui ou acaba com o tesão. O tesão pede experimentações e originalidade.

Mesmo contratado pela realizar um trabalho, é o tesão do artista que desperta o tesão de quem aprecia a sua criação. Tesão bom é tesão compartilhado.

Waite-Smith Tarot

As definições do Waite para a carta são rasas, para variar. A Chave Ilustrada do Tarot, fala, basicamente, de “trabalho especializado, nobreza, aristocracia, renome e glória” – muito longe das atribuições que dou ao 3 de Ouros.

Rachel Pollack, por sua vez, busca construir um discurso esmiuçando a ilustração e joga no meu colo dois bons insights. Descarto o primeiro: no Rider-Waite clássico, os três pentáculos estão dispostos formando um triângulo voltado para cima – símbolo do Fogo. O Golden Art Noveau, no entanto, tem seu triângulo invertido – símbolo da Água.

Essas coisas fazem parte de um exercício visual criativo. Ela pinçou isso de uma imagem que não tem um triângulo igual ao que eu vejo, então coloco a informação de volta na prateleira. Observando outros decks, percebo que a maioria dispõe os três discos/moedas/pentáculos formando um triângulo para cima, incluindo o Marseille, só para constar.

Por que descarto sem choro? Porque a segunda observação é ainda mais interessante: ela elabora que as três figuras combinam a perícia técnica do arquiteto (Ar), a compreensão espiritual do monge (Água) e a energia do desejo do artista (Fogo).

Eu reclamando da falta de Fogo e ela não apenas o trouxe, mas colocou no lugar certo. Grato por isso!

A natureza dos Menores de número 3

Tenho uma maneira um tanto própria de interpretar as Cartas Numeradas, baseado na estrutura da Árvore da Vida. Ok, não sou o único, mas, apesar disso, acho que algumas pessoas, na hora de trazer para o Tarot, costumo ler/ouvir coisas com as quais eu não concordo.

As funções dos dois hemisférios cerebrais

Os Menores de número 2 e 3 são, para mim, mentais e representam os hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Sim, eu sei que as teorias que creditavam intuição/emoção e razão a lados distintos da sua cabeça caíram por terra nos últimos tempos. No entanto, a Cabalá sempre usou essa referência para falar de Chochmá (2), a Sabedoria, e Biná (3), o Entendimento.

Chochmá não é, exatamente, a sefirá da intuição, mas representa o aspecto mais abstrato da criação. Alguns autores falam de inspiração ou insight– prefiro. O Zohar pega as letra hebraicas da palavra Chochmá e transforma em koach e , o “potencial de/para ser”. Na condição de proto-semente, é impossível definir do que se trata. Trazendo para o universo do Tarot, vejo como o primeiro vislumbre de algo emanado por Kether, mas ainda sem elaboração.

Biná é a Mãe Divina, o útero cósmico que recebe, decodifica e modela a energia que veio da sefirá que a antecede. Também é a sede da análise conceitual e do raciocínio, tanto indutivo (observação) quanto dedutivo (conhecimento). Em Biná é projetado o que ganhará forma apenas em Malchut (10), o Reino. Não apenas o que será, mas para qual finalidade. Uma semente de jaca não evoluirá para um pé de figo ou uma enxada.

O tesão do propósito

Quando falamos do 3 de Ouros, gosto de abordar quais os recursos disponíveis, o que é possível fazer com eles e como serão utilizados. Para mim é uma carta de planejamento. Eu tomo consciência de onde estou, para onde quero ir e como faço para chegar.

Não importa a natureza da pergunta. Se tenho o 3 de Ouros na mesa, o desafio é saber como criar uma nova realidade e, em especial, o que me motiva a isso.

Sim, o que motiva é o propósito. No Budismo, a motivação correta (samma sankappa) é p onto de partida para qualquer ação. Mesmo algo aparentemente bom é contaminado (gera karma negativo) se o que me mobiliza tem componentes de ignorância, apego e aversão.

Para Simon Sinek, o propósito é discutido na forma do PORQUÊ:

“O conceito do PORQUÊ é uma jornada profunda e pessoal que nasceu da dor. Descobri a ideia numa época em que tinha perdido toda a paixão pelo meu trabalho. Os conselhos que as pessoas me davam não ajudavam: “faça o que você ama”, “encontre a sua felicidade”, “seja apaixonado”. Todos bons conselhos – mas totalmente impraticáveis. Eu concordava com eles na teoria, mas não sabia o que deveria mudar. Não sabia o que fazer de diferente na segunda-feira. E esse é o motivo pelo qual o PORQUÊ tem sido e continua sendo uma força tão profunda na minha vida. Descobrir meu PORQUÊ não apenas renovou minha paixão como também me deu um filtro para tomar decisões melhores” – SINEK, Simon, em Encontre Seu Porquê.

Juntando as pontas, o tesão está no 3 de Ouros na medida em que uma ideia brota na minha cabeça e eu reconheço (me identifico com) o seu valor quando ela vier a ganhar forma no mundo.

O tesão está no corpo

E assim é a vida: a gente provoca e ela responde. Desde o dia que tirei a carta e comecei a pensar no assunto, o tema começou a aparecer com maior incidência. Conversas em aula, queixas nas consultas de Tarot e na clínica.

Eu não sei se eu que fiquei mais atento a isso ou se realmente aumentou o número de comentários que passam pela desorientação, desânimo e perda de interesse pelas coisas. Duas pessoas, inclusive, pontuaram problemas no relacionamento por conta por falta de apetite sexual de seus pares.

A cada narrativa o 3 de Ouros veio à minha cabeça. Se eu tirasse uma única carta como conselho e essa fosse o 3 de Outros, o que eu poderia dizer para elas? E se aparece como bloqueio/desafio?

Talvez tenha vindo uma carta de Ouros porque precisamos resgatar a consciência do corpo. A maioria de nós perdeu isso com o tempo. E não tem como falar de prazer sem ter um corpo para senti-lo. O estágio 3 ainda está na cabeça, mas é o gatilho que desperta a emoção do 4 em movimento de expansão. Uma vida sem prazer se resume à mera luta pela sobrevivência.

Falo muito de prazer em Copas (olha o triângulo invertido do Golden Art Noveau aí), enfatizo “satisfação” para que as pessoas não se limitem a pensar no prazer sexual. O prazer gera vitalidade e alegria. Mas muito pouca se o reduzimos à genitalidade, pois o prazer verdadeiro toma o corpo por inteiro.

“Sem a sensação da sexualidade no corpo, não haveria a dança, a música, a poesia. A sexualidade limitada à excitação genital só pode produzir pornografia” – Alexsander Lowen, em Medo da Vida.

Res-Pira

O After Tarot mostrando o trabalho finalizado

Então, para vivermos plenamente o prazer e a criatividade temos que aliviar as tensões do nosso corpo. Medos, frustrações, vergonhas, experiências de castração etc. tornam nossos corpos rígidos e insensíveis.

Na contração, a energia flui com dificuldade. Precisamos reaprender a respirar e a expressar nossas emoções de forma adequada. Precisamos ouvir o corpo. Isso não é simples e não acontece do dia para a noite.

A minha recomendação para qualquer pessoa que tenha perdido o tesão (pela vida, pelo trabalho, pelo seu par) é ter o acompanhamento de um(a) psicoterapeuta. Se for de uma linha que tenha uma abordagem corporal, melhor.

Este texto é escrito durante a quarentena da COVID (caso seja lido em qualquer outro momento), logo, as atividades coletivas estão restritas. Dançar, por exemplo, trabalha flexibilidade e ritmo – e pode ser feito em casa. A prática do yoga também ajuda na consciência corporal e há inúmeros professores dando aulas online.

“Tá, mas qual o conselho do Tarot?”. O 3 de Ouros vai te pedir para que busque algo que faça sentido para você. Esse “fazer sentido” é algo que conversa com a alma. Fazer uma lista do que você gosta ajuda, mas não se trata apenas disso.

Se formos pensar em uma atividade profissional, por exemplo, talvez algo que você goste de fazer sirva apenas como hobby. Convertido em trabalho, pode virar um fardo.

Apesar de estarmos em Ouros, também não pense “no que vai dar dinheiro”. Dinheiro é consequência. A estabilidade de Ouros tem a ver com aquilo que te enraiza. De volta ao Sinek, o seu PORQUÊ é a chave. Não é o que as pessoas esperam de você, mas quem você espera ser, independente dos modelos preestabelecidos. É refletir sobre o que te faz ser quem é – ou quer ser. É não perder de vista o que te leva a fazer o que você quer fazer – lembre-se da motivação correta.

Na falta de certeza, faça perguntas

Tudo começa com uma pergunta. Ao invés de afirmar constantemente “eu estou muito cansado(a)”, “eu não sei o que fazer” ou “nada me interessa”, experimente questionar: “por que eu ando sempre cansado(a)?”, “a quem esse cansaço pertence?”, “o que eu (o meu corpo) gostaria de fazer?” ou “o que despertaria o meu tesão/interesse?”.

Pergunte e abra espaço para a resposta. Ela poderá não vir de imediato, mas esteja atento(a) para as informações que começarão a surgir nos próximos dias e não deixe de continuar perguntando.

Árvore da Vida
Etz Chaim, a Árvore da Vida

Na Árvore da Vida, 1, 2 e 3 formam a trindade superior – não, eu não estou falando de Pai, Filho e Espirito Santo. Quando se acessa Biná (que também dizem ser a morada da nossa melhor versão), provocamos Chochmá e Kether no nosso microcosmos.

Tenha em mente que Ouros demanda trabalho, disciplina e comprometimento. É um erro achar que a Fada do Dente vai tirar de você todo o desânimo e mostrar uma estrada com tijolos dourados. Importante: em momento algum estou falando aqui de quadros depressivos, pelamor. Desânimo e uma coisa e depressão é outra. Não está na alçada de um oraculista tratar da depressão. Há profissionais mais qualificados para esses casos.

Toda conversa aqui gira em torno de uma desorientação básica, da falta de perspectiva e do medo de mudança, entre outras situações que nos afligem vez ou outra. Mesmo a falta de desejo sexual pode não ter a ver com a pessoa com quem se convive, mas com a perda da alegria como um todo.

Não se esqueça

Eu tirei aqui para escrever sobre uma única carta dentro do contexto já explicado. Um jogo completo poderá mapear bloqueios internos e oportunidades. Nenhum oraculista poderá dizer “faça isso”, ainda que seja essa a expectativa do(a) consulente. Mas é possível trazer esclarecimentos e fazer sugestões preciosas.

Possam todos se beneficiar!

Ilustração do thumbnail: Pachu M. Torres