Chanucá em Kislev
Celebração pública de Chanucá em Nova Jersey/2019 – Fonte: New York Times

Em 2021, Kislev começou no dia 5 de novembro. Em qualquer outro momento, verifique um calendário que faça a devida conversão.

Este é o mês marcado pela celebração de Chanucá durante oito dias (este ano, de 28 de novembro a 6 de dezembro). Apesar das justificativas históricas, para mim é curioso que tenhamos a celebração indiana do Divali semanas antes. São duas festividades próximas marcadas pelo acendimento de velas tendo como princípio a “Luz que vence a Escuridão”.

No contexto judaico, a “escuridão” é personificada por “Antíoco IV Epifânio, que chegou ao trono do Império Selêucida em 175 a.C. e iniciou uma campanha de assimilação contra os habitantes da Judeia. Num esforço de unificar os elementos Gregos do seu império, Antíoco determinou a destruição da fé Judaica e a helenização dos Judeus. Um Édito foi publicado impondo os rituais religiosos aos Judeus em Jerusalém, sob pena de morte”Wikipedia.

Estamos na época do Segundo Grande Templo, que foi invadido e maculado. Estátuas de divindades gregas foram instaladas e, aos pés de Zeus, sacrifícios eram feitos.

A primeira guerra religiosa do mundo

Surgem, então Matityahu (Matatias) ben Yoḥanan e seus cinco filhos, que ficaram conhecidos como “os Macabeus”. Dizem que Macabeu significa “martelo”, mas o título é um acrônimo para mi camocha bae-lim Hashem (“quem é como Tu dentre os fortes, Ó D’us”). Se se a tradição judaica não morreu, deve-se a eles.

Matityahu veio a falecer pouco tempo depois e o seu filho, Yehudá (Judas), seguiu na liderança de uma pequena tropa de pessoas comuns que conseguiu, três anos depois, vencer o enorme, experiente e bem armado exército selêucida através de táticas de guerrilha.

Capa do livro “Maccabee! The Story of Hanukkah” – à venda na Amazon

O milagre de Chanucá em 25 de Kislev

Chanucá significa “dedicação”, no sentido de ato inaugural. Após retomar Yerushalayim (Jerusalém), os judeus trataram de remover todos os vestígios pagãos do Templo. A grande menorá (“lamparina”) de ouro havia sido roubada e criaram uma nova com material menos nobre.

Naquele tempo, a menorá do Templo permanecia acesa todo o tempo. Na ponta de cada braço havia um espaço para óleo e pavio, sendo que este óleo deveria ser ritualisticamente consagrado.

Eram 25 de Kislev de 3595 (165 AEC – Antes da Era Comum) quando altar e menorá foram restituídos. E aí surgiu uma questão difícil: no estoque de ânforas com óleos, várias foram profanadas, exceto uma, que permanecia com o lacre do cohen anterior, Yochanan. Uma ânfora de óleo era suficiente para um único dia com a menorá acesa. Oito dias seriam necessários para produzir mais óleo dentro daquilo que era exigido.

Acender a menorá com o óleo da única ânfora para vê-la apagar no dia seguinte ou esperar oito dias para garantir sua chama sempre acesa? Quando se trata da oportunidade de manifestar a Luz, não devemos hesitar.

Chamamos de milagre tudo que foge do que compreendemos como leis naturais do universo. O óleo que deveria queimar por apenas um dia, levou oito – tempo suficiente para permitir que a menorá do Templo não voltasse a apagar.

Samech e Gimel, as letras de Kislev

Eu queria chamar a atenção para duas coisas interessantes antes de falar das otiot em seus atributos.

Na sequência alfabética, Samech (a letra de Kislev) segue Nun (a letra de Marcheshvan), assim como Gimel antecede Dalet – também presente no mês anterior.

No texto atribuído à Rav Akiva a respeito da criação do mundo, é dito que esses dois pares de letras devem permanecer sempre unidos. Samech é quem ergue os caídos, Nun, e Gimel é o homem rico que vai ao encontro do homem pobre, Dalet, para auxiliá-lo. É curioso que as encontremos em meses colados.

A outra observação é que Gimel se faz presente como regente planetário em dois meses, Kislev e Adar. Nos dois temos a celebração de grandes milagres, Chanucá e Purim – já fica essa dica

Samech, regente de Keshet – o Arqueiro

Samech em Kislev
Letra Samech no Oráculo Otiot

Keshet pode ser entendido como “arco” ou “arqueiro”. Também é nome dado ao “arco íris”. Obviamente não temos a figura de um centauro no escopo judaico.

Apesar disso, repetimos na astrologia judaica a ideia de mirar para o alto (a busca do mais elevado) e atingir o que está distante (meta).

Quando enxergamos Keshet como arco íris, temos a promessa de D’us de que nunca mais as águas se tornariam em dilúvio para destruir toda carne.

De fato, lembrando o que escrevi anteriormente, é dito que toda vez que um arco íris aparece nos céus é porque uma energia de julgamento foi dissipada. Há, inclusive, uma brachá (“bênção”) própria para isso:

Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech Haolam, Zochêr Habrít, Veneemán Be’britó, Ve’kaiam Bemaamaró (“Bendito sejas, Eterno nosso D’us, Rei do Universo, que lembra o Pacto, é fiel ao Seu Pacto, e cumpre Sua promessa”).

O Tehilim/Salmo 145 é um dos nove em forma de acróstico, onde a inicial de cada sentença segue a sequência alfabética.

No 14º versículo, temos: Somech Adonai lechol hanofelim, vezokef lechol hakefufim (“O Eterno reergue todos os caídos, e dá apoio a todos os abatidos”).

Um dos principais atributos de Samech é restaurar a dignidade (reerguer – somech) das pessoas. Da mesma forma que a letra Gimel, ocupa esse lugar de ajuda a quem precisa. Não é à toa que fazem par em Kislev e seguem próximas à Nun e Dalet.

Por ser fechada e de forma circular, remete a duas imagens: a primeira é de um círculo de proteção. Rav Akiva dizia que o perímetro de Samech representa D’us protegendo o miolo, que é Israel.

A segunda alusão é à uma aliança, que representa o pacto que se dá com D’us. A partir desse momento, Ele passa a apoiar (samach) quem Nele toma refúgio. Dentro de uma abordagem espiritual, uma aliança requer não apenas compromisso dos dois lados (eu mantenho a aliança seguindo/honrando determinados preceitos) como confiança naquele que protege.

Não são poucas as tradições que têm frases do tipo “Por que temer se eu estou aqui?”. Samech traz essa certeza.

Gosto de destacar que Samech também é inicial de sod (“segredo”). Isso pode ser levado para o sentido mundano de algo pessoal que é mantido oculto. Mas, em especial, podemos trazer sod para o âmbito dos mistérios espirituais.

Há cinco níveis de interpretação da Torá, chamado pardes (“pomar”). Cada letra identifica um desses níveis, sendo o S de sod. É aqui que são revelados os códigos. Ter acesso aos sodot (plural de sod) é entender o que está para além dos sentidos – as leis espirituais que regem todas as coisas.

Gimel, regente de Tsedek (Júpiter)

Letra Gimel
Letra Gimel no Oráculo Otiot

Tsedek é a palavra hebraica “justiça”. O planeta se expressa através da retidão em todos os aspectos e da justiça social, em particular.

A palavra tsedacá é traduzida como “caridade”, sendo que o certo é “fazer justiça”. Quando entendemos que quem tem compartilha com quem precisa, ser caridoso passa a ser mais do que um ato de generosidade. É a consciência de que isso é o certo a ser feito.

Eu certamente voltarei ao tema quando escrever sobre a letra Tsade, inicial de tsadik (“justo”), tsedek (“justiça”) e tsedacá (“fazer justiça”), mas não tinha como ignorar isso abordando a influência planetária.

Mais do que isso, essa associação explica o fato de Gimel ser o homem rico que vai ao encontro do homem pobre – a letra Dalet. Esse “ir ao encontro” tem a ver com o fato do formato de Gimel lembrar um bota, que sempre sugere movimento.

Com as mesmas letras que soletramos Gimel também temos duas palavras curiosas: a primeira elas é gemul, que serve tanto para “recompensa” quanto para “punição”. Isso significa que toda escolha deflagra uma consequência.

A segunda é gamol, que se aplica para “nutrir” e “desmamar”. O ensinamento é que ajudamos (nutrimos) enquanto a outra pessoa se encontra de alguma forma debilitada/impotente, mas não devemos criar dependência para além do tempo necessário. A ajuda vem para dar autonomia, daí saber a hora certa de desmamar.

Gimel também encabeça um dos títulos de D’us e um nome alternativo à Chesed (“Bondade Amorosa”) na Árvore da Vida – Gedulá (“Grandeza”), indicando a nossa capacidade de amar (expressar bondade amorosa) antes antes mesmo de qualquer ação que expresse esse amor. Em outras palavras, quanto maior a grandeza do coração, maior a sua capacidade de produzir coisas para o (benefício do) mundo.

Chanukiá, a menorá especial de Kislev

A chanukiá de Kislev
A menorá de nove braços

Baruch Atá A-do-nai, E-lo-hê-nu Mêlech Haolam, asher kideshánu bemitsvotav, vetsivánu lehadlic ner Chanucá (“Bendito és Tu, A-do-nai, nosso D’us, Rei do Universo, que nos santificou com Seus mandamentos, e nos ordenou acender a vela de Chanucá“).

Menorá (“lamparina”) é um candelabro de sete braços. Ela foi criada para o Tabernáculo (Mishkan) no deserto e reproduzida no Primeiro e no Segundo Templo. Conforme narrei anteriormente, ela ficava permanentemente acesa no altar.

Volta e meia eu vejo vídeos e fotos de pessoas acendendo velas em menarot. Até onde eu sei, isso é um equívoco. Desde a destruição do Segundo Templo, as luzes da menorá são espirituais, não físicas.

Especialmente para a celebração de Chanucá, temos a chanukiot, que são candelabros de nove braços. O nono braço sempre se destaca dos demais. Essa é a posição da vela shamash (“assistente”). Cumprindo o ritual, primeiro a gente acende a vela shamash e, com ela, as demais.

Chanucá é uma celebração de oito dias para lembrar do tempo em que a menorá do Templo ficou acesa com o azeite que era suficiente para um. Então, no primeiro dia de Chanucá acendemos apenas uma vela com a ajuda da shamash. No segundo dia, acendemos duas velas. E assim sucessivamente, até que , no oitavo dia, tenhamos toda a chanukiá iluminada.

As velas da chanukiá não devem ter outra serventia além de serem contempladas. Não se acende nada nelas ou não se faz uso da luz para ler algo, por exemplo. Quando possível, a chanukiá deve ser acesa perto da janela para as pessoas possam ver de fora.

Amplie a sua Luz e ilumine o mundo

As lições de Chanucá nos ensinam vária coisas. Dentre elas, que devemos sempre defender o que é certo. E o que é certo? Certo é o que assegura a dignidade das pessoas, o que respeita as diferenças e não segrega.

Também que, mesmo em desvantagem, devemos confiar em nós mesmos e na presença de D’us em nossas vidas.

O Judaísmo sempre compara o homem à chama de uma vela. Devemos lembrar que por mais que usemos uma vela para acender outras, a sua luz não diminui. Doe de si na justa medida, mas não tenha medo de exercitar a generosidade.

O mundo é feito por cada um de nós. Espalhe a sua Luz.

Possam todos se beneficiar!

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