Enquanto isso, na Sala da Justiça

O conceito de Justiça parece ser bem simples de ser aplicado ao Tarot, mas o Arcano VIII talvez guarde mais informações do que você imagina.

A Justiça - The Alchemical Tarot
A Justi̤a РThe Alchemical Tarot

Entre os Arcanos Maiores do Tarot, temos a representação das Quatro Virtudes Cardeais. São elas: Justiça (8), Prudência (9), Força (11) e Temperança (14).

Discute-se a respeito das virtudes desde Sócrates. Alguns defendem que elas são inerentes ao homem (você tem ou você não tem). Outros afirmam que se trata de um comportamento adquirido por meio da vontade e do hábito. Para Tomás de Aquino, as virtudes definiam o máximo daquilo que uma pessoa pode ser – ultimum potentiae.

Uma visão a respeito das virtudes ajuda, mas não define as cartas correspondentes como um todo. O Tarot tem suas particularidades. De qualquer modo, vejo algumas pessoas com leituras tendenciosas com relação ao Arcano 8. Vamos ver se a partir deste texto trazemos novas percepções.

Sim, é possível remeter a algo que envolva a legalidade da situação. É uma atribuição literal que depende da pergunta formulada.

De qualquer modo, é necessário ter cuidado ao imputar à carta conceitos espirituais banalizados, especialmente o karma. Já estive com uma pessoa que gritava “karma!” quando a Justiça aparecia no jogo, como se estivesse no bingo.

Na sequência de Enamorado e Carro, é correto afirmar que estamos diante das consequências de nossas escolhas (6) e ação (7). Mesmo assim, é preciso tomar cuidado ao atribuir o que é certo ou errado de maneira simplista. Quem estabelece, para início de conversa, o que é devido para cada um?

Dentro de uma perspectiva espiritual básica, karma não é castigo, mas o que é. Existe o karma de nascer pobre, assim como o karma de nascer rico. Dito isso, trazer esta expressão para o jogo é chover no molhado. Tudo o que o Tarot consegue descrever faz parte do karma do consulente.

A justiça dos homens x a justiça de D’us

Do ponto-de-vista jurídico, as regras são criadas pelos homens e aplicadas de acordo com o que cada grupo considera correto para a boa convivência entre seus membros. Nos EUA as leis variam de Estado para Estado. Dentro do mesmo país, algo proibido na Califórnia pode ser liberado no Texas – e vice-versa.

Se você for apelar para algo do tipo “certo aos olhos de D’us”, pior. Os dogmas existem de acordo com a tradição a qual pertencem. A interpretação – algumas vezes equivocada – dessas regras depende dos representantes (ou os que assim se dizem ser) de cada caminho. Poderia entrar em questões delicadas, como a exploração da fé de algumas denominações, mas vou me esquivar disso.

Krishna Gopala
Krishna Gopala

Para dar um exemplo simples e de ordem prática, podemos falar de alimentação.

Os Hare-Krishnas, assim como outros grupos religiosos, são vegetarianos por respeito a toda forma de vida. Os judeus não têm problemas com a carne bovina, contanto que seja kosher. Uma filha raspada de Iansã não pode comer abóbora, assim como um filho de Oxalá não pode com sardinha. Percebe que essa conversa não atende regras de almanaque?

Agir com integridade

Pinçando mitologias ao redor do mundo, temos Ma’at, que representa a verdade para os egípcios. No momento da morte, ela pesa o coração do homem. Se ele for mais pesado do que uma pena, estará condenado ao Inferno. Para os gregos, Themis governa as leis da natureza e guarda os juramentos que, uma vez proferidos, devem ser cumpridos. Para os romanos, cabe à Iustitia ser porta-voz do que é justo (ius-dicere – “dizer o justo”, origem da palavra justiça).

Daqui a pouco vou escrever sobre tsedacá, mas, da mesma raiz, temos tzadik, que é o “justo” dentro da tradição judaica. O título é dado àquele que venceu a Má Inclinação – seus impulsos egóicos.

Uma pessoa que procura aconselhamento, necessariamente não precisa compartilhar das mesmas crenças espirituais de seu conselheiro. Ninguém é obrigado acreditar em reencarnação e não existe consolo algum abordar débitos de vidas anteriores. Os processos de ação e reação possíveis de serem discutidos dizem respeito ao aqui e agora.

Podemos afirmar que aquilo que o consulente vive é fruto de suas escolhas sem medo. E isso se aplica tanto nas questões triviais quanto nas jurídicas. Encontramos na carta da Justiça as ações legais de qualquer natureza, acordos, promessas e pactos, assim como a figura do Advogado.

Interdependência

A carta da Justiça carrega a espada na mão direita e a balança na mão esquerda. Um prato da balança está ligado ao outro, de modo que não há como mexer em um sem que algo aconteça com o seu par.

A noção de interdependência é anterior à “causa e efeito” porque não se trata apenas de “isso é problema meu”. Uma pessoa que fuma não apenas envenena os seus pulmões, como geralmente afirma. Ela deteriora a qualidade do ar ao seu redor. Em escala global testemunhamos a mesma coisa a cada crime ecológico. Isso sem contar as pautas econômicas e de direitos humanos.

Nã há exagero. Se estamos alegres, tristes ou enfurecidos, nosso estado emocional impacta direta ou indiretamente quem está próximo em um efeito dominó.

O fato é que no momento em que adquirimos a consciência da interdependência, nos tornamos mais cuidadosos com os nossos atos. Dentro de uma ótica espiritualista, se esta for permitida, devemos estar vigilantes, inclusive, com relação aos pensamentos, pois eles também são agentes de mudança.

Não é necessário ser tão espiritualista assim: quando estamos bem, quase tudo dá certo e, o que não dá, se resolve rápido. Quando estamos mal, por outro lado, tudo parece contribuir para a perpetuação da tristeza ou mau humor.

Equidade e discriminação

A Justiça é curiosa: por um lado ela precisa ser isenta e tratar a todos como iguais, razão pela qual pode ser representada usando venda nos olhos. No entanto, sua natureza é – e precisa ser – discriminativa, pois separa o falso do verdadeiro.

Chama a minha atenção, quando dispomos todos os Arcanos Maiores no modelo septenário, as cartas da Justiça e da Temperança ocuparem posições extremas na segunda linha: enquanto a primeira classifica e diferencia, preservando as partes, a segunda anula as individualidades através da fusão. A primeira procura um ponto de equilíbrio (o alinhamento dos pratos), a segunda dispõe dos elementos na medida adequada à cada necessidade.

Da teoria para a prática, toda vez que a Justiça estiver em jogo, não misture as coisas – isso é trabalho para a Temperança. Aqui você é solicitado a pesar, analisar, dissecar, classificar, priorizar, (re)organizar, relacionar prós e contras, ler nas entrelinhas… Faça tudo isso e depois não reclame de ter deixado passar algo despercebido. A Justiça pode ser o advogado, mas também o contador, o engenheiro, o cientista, o cirurgião… Tudo que requer uma exatidão matemática.

A Justiça - Tarot de Marselha Pierre Madenié
A Justi̤a РTarot de Marselha Pierre Madeni̩

Combinado não sai caro

A carta da Justiça fala de acordos, formais ou não. Resgatando o mito de Themis, “palavra dada é palavra empenhada”. Muito cuidado com o que se promete e documentos que assina.

Exija o que lhe foi prometido na justa medida, sem querer levar vantagens ou aceitar menos. Se aceitar menos, assuma isso sem esperar compensações espontâneas, pois elas podem não acontecer.

O Arcano VIII fala de responsabilidades: as que temos com relação aos nossos familiares, amigos, trabalhos e vínculos espirituais. Nem tudo é regido por contrato ou nos aparece como opção.

Assumir a sua porção em toda e qualquer história é sinal de maturidade e passaporte para virar a página e seguir adiante.

Ajustamento

Aleister Crowley foi o primeiro a alterar o nome da lâmina, defendendo que o nome “Justiça” está baseado em um princípio humano enquanto “Ajustamento” se refere à natureza, que não é justa, mas exata. O Universo está constantemente em busca do equilíbrio e tudo o que acontece tem este propósito de forma absolutamente impessoal.

Eu gosto de usar a expressão, mesmo sem toda a bagagem do Thoth Tarot. Aposto mais nos processos de tentativa e erro, na disciplina e no refinamento. Ser bom não é o suficiente, é preciso ser melhor a cada dia. Mas faça isso de forma saudavel, sem estressar o seu sistema. É como entrar para a academia: a nossa capacidade de trabalhar com pesos maiores aumenta com o esforço constante.

A vida não está boa? O trabalho não satisfaz? O relacionamento está difícil? O dinheiro não chega no fim do mês? O que pode ser feito para que se alcance um ponto de equilíbrio? Em que aspectos eu posso exigir algo e em quais preciso fazer concessões? Será que uma outra abordagem não se faz necessária? Estou dando o peso certo para cada coisa? Grande parte de nossos sofrimentos derivam da confusão que fazemos em tornar o pequeno, grande; e o grande, pequeno.

Poder para dar, condição para receber

A palavra hebraica tsedacá é traduzida como “caridade”, mas, literalmente, significa “fazer justiça”. Existem várias análises com relação a isso e não vou entrar no mérito religioso. Gosto da lógica que orquestra isso. A gente só pode dar aquilo que possui. Se tem é porque recebeu. Se tem bastante, compartilhe e permita que outras pessoas usufruam do mesmo benefício – de novo vem a questão da interdependência.

6 de Ouros - The After Tarot
6 de Ouros – The After Tarot

Quando a gente bota a energia em movimento, ela sempre se renova. O Seis de Ouros pode (e deveria) ser interpretado dessa forma. No Rider-Waite temos a balança de volta, agora nas mãos de alguém de posses.

Quando ele aparece no jogo, é preciso ter certeza da posição que ocupamos. Por vezes somos aquele que tem o poder de beneficiar o próximo. Em outras situações, somos aquele que precisa receber ajuda.

Na qualidade de quem faz justiça, a balança lhe confere a capacidade de dar/ajudar na medida certa da necessidade de cada um. Talvez ele dê 5 moedas para o primeiro, 7 para o segundo e nada para o terceiro. Vale, inclusive, o ditado de saber a hora de dar o peixe e a hora de ensinar a pescar.

Aí surge a pergunta: “a retidão está em agir de acordo com a lei ou de acordo com a sua consciência?”

A meu ver, integridade e retidão se revelam naturalmente quando estamos conscientes de nossa essência, nos despimos das máscaras e curamos todas as nossas feridas. O caminho é longo, com seus erros e acertos, mas cada passo vale a pena.

“Faz o que for justo. O resto virá por si só” — Goethe

Possam todos se beneficiar!

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