Vida de ponta-cabeça

Fyodor Pavlov Tarot
Fyodor Pavlov Tarot

A carta do Pendurado é uma daquelas lâminas de desconforto do Tarot. De modo geral, fala de situações em que, teoricamente, nada pode ser feito a respeito. A decisão final ou evolução de um processo não depende da sua vontade, mas da vontade de outra(s) pessoa(s) e/ou do próprio fluxo da natureza.

É uma lâmina de esperas e, consequentemente, agrega à impotência os sentimentos de ansiedade e frustração. Estar pendurado é estar à mercê dos acontecimentos, é não ter um ponto de apoio neste momento da vida.

Dizia Arquimedes, “Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo” – pois é, não é o caso aqui. E quanto mais rápido a gente entende esta condição, melhor. Uma vez na areia movediça, quanto mais você se debate, mais rápido afunda. Este é um momento que pede – E MUITO – por serenidade.

A carta do traidor

A punição de ser pendurado de cabeça para baixo é um indicativo de traição. No contexto em que as cartas foram criadas, uma traição à Coroa – ou algo do gênero. Pelamor, não venha me dizer que o Pendurado confirma infidelidades conjugais.

Hoje em dia, e dentro de um viés psicológico, interpretamos isso como trair a si mesmo. Ninguém te pendura na árvore, mas é você mesmo quem se coloca neste lugar. Como? Toda vez que você não é fiel à sua verdade. Quando você faz (ou deixa de fazer) coisas apenas para ser aceito ou “para não se aborrecer”.

Claro, todo mundo faz concessões vez ou outra. A vida equilibrada pede que às vezes a gente abra mão de algo em prol de uma situação ou pessoa. Zero problema em doses moderadas. O que a gente não pode é levar uma vida de concessões. O que não pode é a gente se anular com relação a uma pessoa, por exemplo, seja pelo motivo que for.

A figura está presa pela articulação do tornozelo, o que, dentro da linguagem do corpo, está diretamente associada à capacidade de seguir em frente com convicção. Pessoas que tropeçam com frequência, pisam de mau-jeito e torcem os tornozelos não estão emocionalmente centradas. Os passos não são firmes. Há medo, dúvida e/ou insatisfação. Na verdade, o indivíduo enfrenta uma recusa interior (consciente ou não) em seguir uma direção que não lhe agrada, daí a sabotagem.

O Arcano da entrega

Isso nos leva a um ensinamento nada fácil, que os hindus chamam de sharanagati (”rendição”). Render-se nunca soa bem. O pensamento imediato é de derrota, algo que o ego rejeita com veemência. Ele sobrevive alimentado pelos problemas/conflitos e pelos desejos de realização. Quando a gente se rende, o ego imediatamente enfraquece. Se para alguns a rendição traz alívio, para a grande maioria acredito que traga um enorme desamparo.

Mas o sharanagati não é uma rendição qualquer. Você não se rende, necessariamente, à outra pessoa ou à obstrução que encontramos diante de nós, mas se rende à D’us. Você não fica desamparado, mas, como fazem os budistas, “toma refúgio” em algo muito maior que você e a realidade (limitada) que consegue perceber.

Para usar uma expressão mais familiar, pense em “que seja feita a Sua Vontade, e não a minha” – algo que os cristãos falam muito (quando falam) e pouco internalizam, o que torna tudo sem-efeito. Segundo Leslie Temple-Thurston, no livro Retorno à Unidade, a dificuldade de realizar isso é uma característica de um bloqueio entre os chakras Cardíaco e Laríngeo, que coloca em xeque a nossa liberdade de escolha.

Geralmente dou como exemplo algumas mulheres que desejam engravidar e sofrem muito por não conseguirem, mesmo depois de inúmeras tentativas e auxílio médico. Não são raros os casos em que o casal opta por adotar uma criança e, pouco tempo depois, acaba engravidando “sem querer”. Quando engravidar deixa de ser um problema (uma obsessão) a gravidez acontece.

Os cabalistas dizem que o Satan (que significa tanto “opositor” como “obstáculo” em hebraico) está onde colocamos o pensamento. Quando o foco muda, surgem novas possibilidades. Mas quem, verdadeiramente, consegue fazer um sharanagati de coração? Eu encontro muitas dificuldades nisso, dependendo da importância da questão, confesso sem medo. E não adianta “fazer de conta que não quer, querendo”, pois isso nada mais é do que uma tolice da mente despreparada.

Um dos pilares da filosofia taoísta é o conceito de Wu Wei (”não-ação”) ou Wei Wu Wei (”ação sem ação”), que traz consigo a fluidez natural das coisas. Trata-se de não tentar fazer o que não nos compete em determinado momento ou, mais do que isso, é fazer o que tem que ser feito sem a expectativa do resultado – por esta razão citei o “fazer de conta que não quer, querendo” antes, que é só uma forma de tentar enganar a si mesmo.

Temos a compulsão de “fazer alguma coisa” e estamos sempre de olho em algum tipo de recompensa. Somos criados para agir dessa forma. Nós cobramos constantemente de nós mesmos uma atitude, uma resposta na ponta da língua. A sociedade também faz isso. Aliás, somos avaliados em função da nossa capacidade de agir e reagir. Achamos, inclusive, que temos que fazer algo mesmo quando não sabemos o que fazer – o que, invariavelmente, resulta em fazer algo (muito) errado.

O Wu Wei busca a quietude interior, pois quando você não pensa no que tem que fazer (ou no que esperam que você faça), a mente é desconectada. Alguns baralhos colocam uma aura em torno da cabeça do Pendurado, que é um estado de “eureka!”. A mente expandiu. Isso só ocorre, contudo, quando nos rendemos por completo ao momento presente e vivenciamos a opção de “fazer pelo não-fazer”.

O ego está sempre no passado e futuro, sempre alicerçado por resultados – os concretos e os imaginários. No presente só existe a consciência.

“Castigo” é uma questão de ponto de vista

O estágio XII do Tarot pode ser visto como um castigo ou um precioso momento de reflexão e despertar. É como a história do “meio-copo cheio” ou “meio-copo vazio”. É a carta da parada necessária, por mais que esta seja forçada e/ou ocorra em um momento que julgamos como não oportuno.

A gente não para porque tudo se desfaz, como ocorre na Torre, mas, na maioria das vezes, pela ausência de recursos. Entenda “recursos” de forma ampla. Um conhecimento específico pode ser recurso inexistente dentro de uma questão. A falta de vitalidade ou de maturidade também.

É um tempo para pensar, sem atribuir culpas, em nossas escolhas, atitudes e tudo mais que nos trouxe a esta condição. Faça isso sem culpas. Faça isso sem inúmeros “e se…” no passado. Esta é a única forma de avançar para a etapa seguinte: Arcano XIII – A Morte. Eu gosto muito de lembra que estamos com o pé amarrado e a Morte vem com um objeto de corte nas mãos. Você volta a ter seus pés no chão quando opta por mudar.

O que fazer quando não há o que se fazer? Simplesmente pare e respire. Não adianta praguejar, amaldiçoar a si mesmo, o outro e/ou as instituições. O antídoto para a raiva é a paciência. Cultive a paciência.

Respirar com consciência é uma atitude que nos leva para dentro. Não queira ir para dentro, alertam os mestres. Apenas fique consciente da respiração e deixe que o resto aconteça naturalmente, incluindo as considerações sobre escolhas e atitudes que citei no parágrafo anterior – de novo a história de não estar preso a um resultado. Se acontecer alguma coisa, ótimo. Se não acontecer nada, ótimo também.

Quem sou eu para estar aqui?

De novo: o importante não é de onde vim ou para onde vou, mas onde estou. O desapego é palavra-chave para o Pendurado. Não estar apegado ao que se tem e/ou ao que se espera alcançar é parte crucial deste processo. Em alguns baralhos, moedas caem dos bolsos enquanto o Pendurado está com as mãos presas nas costas. Em outras ilustrações ele segura um saco de moedas em cada mão, indicando que ele poderia até se soltar, mas não o faz porque se recusa liberar o que conquistou. Sim, o apego pode lhe custar a vida.

Existe tranquilidade no primeiro caso e desespero no segundo, a escolha é sua. Talvez por isso encontremos o Ceifador na sequência – a caminhada se torna mais leve quando carregamos apenas o indispensável.

Sirsasana
Sirsasana

No Yoga, a postura Sirsasana (”apoiado sobre a cabeça”) é considerado “o Rei dos asanas” devido inúmeros benefícios, mas não vou entrar em detalhes que não domino. Se algum instrutor de yoga passar por aqui e quiser contribuir, será bem vindo. Por analogia, contudo, observo a inversão de nossa Árvore da Vida.

Se no seu estado natural o fluxo de energia flui da cabeça para o tronco, pernas e pés. Em meio à  crise, a mente congestionada desestabiliza a emoção e esta torna nossas ações descuidadas. Logo, invertendo esta ordem, vou considerar que a imobilidade dos membros inferiores – a não-ação – possibilita um estado contemplativo. A postura fortalece uma abertura às Forças Superiores, o perdão e o sentimento de equidade (o corpo emocional). Por aumentar a circulação do sangue na cabeça, amplia as forças mentais criativas e expande a consciência.

A busca de um novo ângulo

Ser colocado (ou se colocar) de cabeça para baixo também á algo que tira as coisas do lugar, quebra padrões e bagunça o pensamento cartesiano – o que pode ser bom. Se agir sempre da mesma forma não está trazendo os resultados desejados, talvez a vida esteja sinalizando que algo precisa mudar.

A Oração da Serenidade, por sinal, deve ser lembrada como um mantra em fases como esta:

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não podemos modificar,
Coragem para modificar aquelas que podemos,
E sabedoria para distinguir umas das outras.

Este é um Arcano que, de alguma forma, desperta a nossa espiritualidade porque, para muitos, é na hora do aperto que se recorre ao Divino. De novo, se você busca se conectar para reassumir o controle, insiste no erro. Se busca algo Superior para fluir melhor com a vida, aí você se liberta. Se a estagnação se faz presente é porque não há fluidez – simples assim. Descubra onde surgiu a obstrução.

Repetindo o mote deste blog, “a vida não muda; quem muda é você”. O Universo não faz barganhas. Promessas, novenas, despachos podem até oferecer soluções temporárias, mas se não houver o despertar de uma nova consciência, o pé fatalmente cairá em uma nova armadilha.

Alguns autores são taxativos e atribuem ao Pendurado a sentença “fracasso”. Não sei se posso concordar. Fracasso é algo muito definitivo. Diria apenas que talvez não seja a hora, o que é diferente. Pode ser que o que ele deseja realmente não aconteça, beleza. Mas talvez apenas não seja o momento certo de acontecer. O Pendurado é uma carta de pendências. Resolva as pendências. Não queime etapas. Perceba o que a vida está lhe dizendo.

É importante, de qualquer modo, lembrar da frase do Osho que diz “ninguém consegue parar de desejar, mas a realidade só acontece quando o desejo para”. O que tiver que acontecer, acontece a partir deste ponto – e não antes.

O Poder da Vulnerabilidade

Estou atualizando este artigo em 2018. Dizem que 2019 será regido pelo Pendurado, mas eu não acredito em regências deste gênero. Seja como for, quero acrescentar aqui um vídeo muito bom da pesquisadora Brené Brown. Ele fala sobre vulnerabilidade. Recomendo, inclusive o livro A coragem de ser imperfeito, de sua autoria. A arte da imperfeição você ainda encontra para Kindle e pode ler primeiro.

 

Possam todos se beneficiar!